Roubando Gram Parsons
20/09/2019 21:51 em Crônicas


Dois caras, um carro fúnebre, um corpo, vinte litros de gasolina e uma promessa. Gram Parsons foi um dos mais influentes músicos de seu tempo. Um pioneiro do country rock, que fez parte do the Byrds, fundou o the Flying Burrito Brothers e tocou o terror com ninguém menos que Keith Richards. Mas talvez nada conte mais sobre sua vida do que o relato de sua morte. Uma história de amizade, música, drogas e perseguição policial. Uma que ninguém acreditaria, se não fosse verdade.

Gram Parsons começou sua carreira musical ainda na adolescência, tocando em bandas cover de rock and roll e folk. Em 1965, largou Harvard depois de um semestre, mudou-se para Los Angeles, e formou a International Submarine Band. O grupo logo assinou com a gravadora LHI Records, e parecia destinada ao sucesso. Mas Parsons tinha maiores ambições. Quando o primeiro e único álbum do grupo, Safe at Home, foi lançado, o grupo já havia terminado.

Em 1968, após conhecer Chris Hillman, Parsons entrou para o the Byrds, substituindo o lendário David Crosby. Originalmente contratado como músico independente para tocar teclados, Parsons logo assumiu guitarra base e vocais, e radicalmente mudou a direção da banda. Sua influência nas gravações do álbum Sweetheart of the Rodeo marcou a transição do folk psicodélico dos trabalhos anteriores do the Byrds, para o country rock que marcaria o resto da carreira do grupo. O disco contou com duas das maiores composições de Parsons, One Hundred Years From Now, e a clássica Hickory Wind. Parsons deixou o the Byrds apenas meses depois, ainda antes do lançamento do álbum.


Da esquerda para direita, Kevin Kelley, Gram Parsons, Roger McGuinn e Chris Hillman, do the Byrds, em 1968.


Em um espaço de seis meses, Parsons entrou para talvez a maior banda norte-americana da década, completamente mudou o estilo do grupo, gravou um dos mais influentes álbuns da história da música popular, e abandonou uma turnê pela europa. Há duas suposições para a saída de Parsons do the Byrds. A primeira é nobre: Parsons se recusou a concordar com a decisão da banda de tocar para públicos racialmente segregados em meio ao Apartheid, na África do Sul. A segunda é um pouco mais questionável: Parsons queria ficar na Inglaterra, e curtir a vida com Keith Richards, dos Rolling Stones. E foi o que ele fez. Enquanto viveu na casa de Richards, Parsons é creditado por apresentar o guitarrista ao country, muito presente nos próximos dois álbuns dos Stones, Let It Bleed e Sticky Fingers, inclusive contribuindo para o arranjo da canção Country Honk.

No ano seguinte, Parsons voltou para o outro lado do oceano, e formou o the Flying Burrito Brothers, com o ex-colega de the Byrds, Chris Hillman. A parceria resultou em alguns dos melhores trabalhos de Parsons, originando o que o músico chamava de Cosmic American Music: sua própria fusão de country, folk, rhythm and blues, soul e o rock psicodélico da costa oeste, com o som inconfundível da pedal steel guitar de Pete “Sneaky” Kleinow. 

O grupo lançou apenas dois álbuns com Parsons, mas que se provaram altamente influentes durante a década que estava por vir. The Gilded Palace of Sin foi um pioneiro do country alternativo, conseguindo construir uma ponte entre o estilo tradicional do gênero com o rock psicodélico predominante do movimento contracultural do final da década de 1960. Os Burritos chegaram a tocar nos famosos festivais de Sly River Rock e Altamont, dividindo palcos com bandas como Grateful Dead, Jefferson Airplane, Rolling Stones e Crosby, Stills, Nash & Young. Em maio de 1970, apenas um mês após o lançamento do segundo álbum da banda, Burrito Deluxe, o abuso de drogas e a falta de profissionalismo finalmente resultaram na saída de Parsons do grupo.


The Flying Burrito Brothers, em 1968.


Já renomado por sua participação com os the Byrds, e em meio a crescente cena do country rock do início da década de 1970, época que viu o surgimento de grupos como America, the Eagles e the Allman Brothers Band, Parsons parecia destinado a iniciar uma carreira solo. Ao invés disso, o cantor mergulhou mais fundo no abuso de substâncias com Keith Richards e os Stones durante as gravações de Exile on Main Street, na França.

Parsons conseguiu continuar dar sequência a sua carreira apenas em 1972, ao lado de uma ainda desconhecida Emmylou Harris. O dueto gravou dois álbuns, GP e Grievous Angels, com participação da TCB Band, famosa banda de apoio de Elvis Presley, liderada pelo guitarrista James Burton. Por indicação de Keith Richards, Phil Kaufman concordou em representar Parsons, mesmo com pouca experiência como empresário. Kaufman trabalhou como motorista e assistente dos Stones durante as gravações do álbum Beggars’ Banquet, em 1968, sendo descrito por Mick Jagger como seu babá executivo. Foi Kaufman, também, que produziu e distribuiu, com os próprios fundos, o único álbum de Charles Manson, Lie: The Love and Terror Cult, em 1970, após conhecer Manson na prisão federal de Terminal Island. 

Em 1973, Parsons e Harris formaram uma banda de apoio com diversos nomes importantes do country rock, incluindo o ex-Byrd Clarence White, e os ex-colegas de Parsons, Pete Kleinow, do the Flying Burrito Brothers, e Chris Ethridge, da International Submarine Band. Em julho daquele ano, White foi atropelado e morto após um show com sua nova banda, New Kentucky Colonels. Segundo relato de Kaufman, foi durante o funeral de White que Parsons expressou seu último desejo: ser cremado no parque nacional de Joshua Tree, na Califórnia. E foi exatamente lá que Parsons viveu seus últimos momentos.

Na madrugada do dia 19 de setembro de 1973, no quarto nº 8 do hotel Joshua Tree Inn, Gram Parsons morreu de overdose de morfina, agravada por ingestão de álcool, aos 26 anos de idade. De acordo com o resultado da autópsia, a quantidade de morfina injetada por Parsons naquela noite era suficiente para matar até três adultos com as mesmas características do cantor.


Mick Jagger, Keith Richards, do Rolling Stones, e Gram Parsons, 1971.


Década de 1970. Morte de estrela da música por overdose em um hotel. Até aí, nada muito incomum. Mas Kaufman tinha uma promessa a cumprir: cremar o corpo do amigo no deserto.

No dia seguinte, Kaufman descobriu que o corpo de Parsons estava no aeroporto internacional de Los Angeles, pronto para ser enviado à família do cantor, na cidade de New Orleans. Kaufman e o assistente pessoal de Parsons, Michael Martin, dirigiram-se ao aeroporto com um carro fúnebre e, passando-se por funcionários de uma funerária, requisitaram a liberação do corpo. O aeroporto liberou, sem pedir qualquer documento que comprovasse a identidade dos dois. Há também o relato que um policial precisou retirar sua viatura que estava estacionada atrás do carro fúnebre, e ajudou no carregamento do caixão, sem desconfiar da situação. Martin, nervoso com a presença de um policial e ainda sob efeito de substâncias, chegou a bater o carro ao manobrar para sair.

Kaufman e Martin levaram o corpo para Joshua Tree, jogaram quase vinte litros de gasolina e colocaram fogo. O resultado foi um grande incêndio que alertou autoridades do parque, que conseguiram conter o fogo, antes que o corpo fosse completamente cremado. Na volta à Los Angeles, Kaufman e Martin bateram o carro fúnebre, e foram declarados presos depois que um policial revistou o carro e achou uma grande quantidade de garrafas de cerveja vazias. Enquanto o policial fazia a ocorrência, Martin ligou o carro, e os dois conseguiram fugir, despistando a polícia durante a fuga. 

Martin e Kaufman foram presos dias depois, após serem identificados por funcionários do aeroporto. Os dois foram apenas multados pelo roubo do caixão, e obrigados a pagar pelos custos do funeral realizado pela família, no estado de Luisiana. Como o policial não conseguiu identificar os dois, não houve como ligar os dois incidentes, e os dois acabaram não respondendo pela fuga.  

Gram Parsons estava a frente de seu tempo. No auge da contracultura, onde todo mundo experimentou com tudo, ou quase tudo, ele foi o primeiro que ousou a mexer com o intocável country de Nashville. Assim como a invasão britânica trouxe o blues para uma maior audiência e Bob Dylan quebrou as barreiras do folk, Parsons foi um visionário, unindo dois estilos que estavam polos a parte e que, juntos, seriam a cara da década que estava por vir. Sua vida terminou muito cedo, mas nenhuma morte é capaz de matar uma lenda. Mesmo depois de morrer, Gram Parsons fez a festa continuar.

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Por Eduardo Hoff.

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