Grateful Dead e a Cultura do LSD na Década de 1960
30/08/2019 18:13 em Crônicas

Ken Kesey e Owsley Stanley. A história do Grateful Dead, e de toda a cena psicodélica da década de 1960, seria muito diferente se não fosse por esses dois controversos nomes do movimento contracultural norte-americano. Formado na baía de San Francisco em 1965, por Jerry Garcia, Bob Weir, Phil Lesh, Ron “Pigpen” McKernan e Bill Kreutzmann, o Dead deu início a sua carreira tocando nos famosos acid tests de Ken Kesey. Foi como a banda oficial dos testes, que o grupo conheceria Owsley Stanley, o rei do LSD, e que viria a ser o maior financiador do Grateful Dead e, como seu engenheiro de som, projetaria o Wall of Sound, o maior sistema de som móvel construído até então.

Ken Kesey foi um escritor e uma das principais figuras do movimento contracultural da década de 1960. Seu livro, One Flew Over the Cuckoo’s Nest, lançado em 1962, foi uma das primeiras obras a estabelecer uma ligação entre a geração beat dos anos 1950 e a cultura hippie dos anos 1960. Durante esses anos, Kesey participou de estudos financiados pelo governo sobre os efeitos causados pelo uso de drogas alucinógenas, principalmente Mescalina e LSD, ambas psicodélicas. Esses estudos incluíram o projeto secreto MKUltra, também conhecido como o programa de controle da mente da CIA, que durou cerca de vinte anos, e só foi levado ao conhecimento do público anos após sua conclusão, em 1973. 

Após o sucesso de seu livro, Kesey se mudou para a Califórnia, onde deu início aos chamados acid tests. Os testes eram festas privadas com o objetivo de oferecer uma experiência alucinógena, combinando o consumo de LSD com música e outros efeitos psicodélicos, como luzes negras e pinturas fluorescentes. Participavam dos testes, entre outros nomes da contracultura, figuras literárias ícones da geração beat, como Neal Cassady, Paul Krassner e Lee Quarnstrom.

Ken Kesey e Neal Cassady, sem camisas, durante a Acid Test Graduation, 1966.

Foi durante os acid tests, ainda em 1965, que Owsley Stanley conheceu o Grateful Dead. Stanley é considerado o primeiro indivíduo a fabricar LSD em massa. Entre 1965 e 1967, antes e depois da mudança de legislação que tornou o LSD ilegal nos EUA, Stanley produziu e distribuiu cerca de 5 milhões de doses do ácido, tornando-se um nome conhecido na costa oeste do país e o principal fornecedor da droga para as festas de Kesey. Atraído pela fusão de folk, rock, blues, jazz, country e psicodelia presente na música do Dead, Stanley logo se tornou o principal financiador do grupo, e começou a trabalhar como seu engenheiro de som.

Eventualmente, os acid tests foram levados para endereços públicos. Em janeiro de 1966, Kesey co-produziu o Trips Festival, com o Grateful Dead como principal atração. A apresentação foi a maior da banda até então, e um dos primeiros shows de luzes da história da música. O festival, que uniu mais de dez mil pessoas em três noites de muita música psicodélica e ácido representou, de fato, o início do movimento hippie da década de 1960, e fez do Dead um nome popular na cena musical norte-americana. 

Em 1967, entretanto, o laboratório de Stanley foi descoberto pela polícia, contendo mais de 300 mil doses de LSD, e Stanley foi sentenciado a três anos na prisão. Em 1970, dezenove membros do Grateful Dead, entre membros da banda, técnicos e o próprio Stanley, foram presos por posse de LSD e outras drogas, na cidade de New Orleans. Todos tiveram suas acusações retiradas, exceto Stanley, que foi sentenciado a dois anos de prisão. O episódio foi a inspiração para a canção Truckin’, um dos maiores sucessos da banda, parte do álbum American Beauty.

Grateful Dead tocando em um acid test, ainda com o nome Warlocks na bateria, em março de 1966. A mudança de nome já havia ocorrido em dezembro de 1965.

Ao sair da prisão em 1972, Stanley começou a projetar um sistema de som livre de distorções para as grandes apresentações da banda. O sistema, chamado de Wall of Sound, combinava seis esquemas de som independentes, com onze canais de transmissão separados. Vocais, guitarra líder, guitarra de ritmo, piano e cada uma das quatro cordas do baixo de Phil Lesh tinham seu próprio canal e conjunto de caixas de som, com a bateria utilizando os outros três canais. Como cada alto-falante carregava apenas um instrumento, cada um utilizando um canal próprio, o sistema gerava um som extremamente limpo, livre de distorções por interferência. 

Apesar de sua eficiência, o tamanho do Wall of Sound tinha grandes problemas de logística. O sistema inteiro pesava cerca de 75 toneladas, sendo necessário quatro trailers e 21 pessoas para transportá-lo e montá-lo. De acordo com Stanley, havia três sets de armações de andaimes para acomodar o sistema de som. Enquanto a banda tocava em um show, parte da equipe se locomovia para o local do próximo evento para iniciar o processo de montagem de toda a estrutura.

O Wall of Sound, sistema de som projetado por Owsley Stanley para o Grateful Dead.

Wall of Sound foi o maior sistema de som móvel construído até então, e o segundo maior até hoje, sendo capaz de oferecer um playback de qualidade até cerca de 180 metros de distância, com um som adequado até cerca de 400 metros, antes que o vento pudesse afetá-lo, sem precisar de torres para ajustar o delay. O sistema também servia como seu próprio sistema de monitoramento, e a própria banda podia controlá-lo sem necessidade de um house mixer.

A maior contribuição de Stanley, entretanto, foi iniciar uma cultura que durou desde o começo do Grateful Dead até seus últimos shows, na década de 1990. Desde seus primeiros dias como engenheiro de som da banda, Stanley deu início a uma longa sequência de gravações de ensaios e apresentações ao vivo do grupo, com o objetivo de produzir material para desenvolver suas habilidades como produtor. O resultado, porém, foi um grande volume de gravações de versões demo e não lançadas de canções de uma das maiores bandas da história da música. Cerca de 2200 dos pouco mais de 2300 shows da carreira do Dead foram gravados e boa parte está disponível online. Além disso, mais de 170 álbuns ao vivo foram lançados.

O Grateful Dead encerrou suas atividades após a morte de Jerry Garcia em 1995, com mais de 35 milhões de álbuns vendidos ao redor do mundo, e doze de seus membros selecionados para o Rock and Roll Hall of Fame, em 1994. É justo questionar o que seria do Dead, ou se ele mesmo existiria, se não fosse por Ken Kesey e Owsley Stanley. Dois dos maiores nomes associados com narcóticos durante a década de 1960. Como no famoso verso da canção Truckin’, que longa e estranha viagem foi a carreira do Grateful Dead.

Long live the Dead. 

 

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Por Eduardo Hoff

 

 

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