Três Dias de Paz e Música: Celebrando 50 anos de Woodstock
20/08/2019 18:01 em Crônicas

Durante os dias 15 a 18 de agosto de 1969, quase meio milhão de pessoas migraram para as terras do fazendeiro Max Yasgur, na pequena cidade de Bethel, no estado de New York, para três dias de paz e música. Cinquenta anos depois, Woodstock continua a ser lembrado como o maior festival da história da música popular, e o momento definitivo da contracultura e do movimento hippie da década de 1960.

O festival foi idealizado por Michael Lang, Artie Kornfeld, Joel Rosenman e John P. Roberts, no início de 1969. Inicialmente planejado para acontecer na cidade de Wallkill, o evento mudou de local pelo menos três vezes, até que a fazenda de laticínios de Yasgur foi oferecida aos organizadores, apenas semanas antes das datas do festival. A decisão foi encontrada com resistência pela comunidade de menos de três mil moradores, que chegaram a ensaiar um boicote a Yasgur e seus produtos.

Woodstock foi originalmente concebido como um evento pago. Cerca de 186 mil ingressos foram vendidos antecipadamente, com a expectativa de um público de cerca de 200 mil pessoas. Entretanto, apenas três dias antes do festival, os organizadores tiveram que decidir entre investir em tapumes e cabines para validação dos ingressos, ou na montagem do palco. Quando dezenas de milhares de pessoas começaram a chegar ainda na quarta-feira, dia 13, a decisão já não estava mais nas mãos da organização, e o evento se tornou gratuito.

As várias mudanças de local criaram diversos problemas de logística e organização. O grande fluxo de veículos, e as chuvas que antecederam o evento, criaram longos congestionamentos. Como o número de presentes no festival essencialmente dobrou a estimativa dos organizadores, milhares de pessoas sofreram com a falta de primeiros socorros, comida, água e até banheiros. O próprio Max Yasgur e seus filhos espontaneamente decidiram suprir o público com tudo que tinham. Além disso, vários shows foram atrasados por conta de tempestades e chuvas fortes. O condado de Sullivan, do qual a cidade de Bethel faz parte, chegou a declarar estado de emergência.

O trânsito representou um grande problema para o festival, causando, inclusive atrasos de artistas.

Creedence Clearwater Revival foi a primeira banda a aceitar o convite para o festival, em abril de 1969. Até então, os organizadores haviam encontrado dificuldade para conseguir grandes nomes para o evento. Entre os artistas convidados que rejeitaram o convite, estavam nomes como the Beatles, the Rolling Stones, the Byrds, Chicago, Free, Jethro Tull, Led Zeppelin, Procol Harum, Roy Rogers, Simon & Garfunkel, Frank Zappa, Spirit e the Doors. Muitos declinaram por pensar em se tratar de apenas outro festival, e expressaram arrependimento da decisão. Outro fator que contribuiu para as desistências foi o festival de Isle of Wight, na semana seguinte, que contaria com muitos dos mesmos artistas convidados.

A banda Iron Butterfly tocaria no domingo, mas acabou ficando presa no aeroporto e não conseguiu chegar a tempo. Joni Mitchell, que escreveria a canção Woodstock no ano seguinte, cancelou de última hora, com medo de perder uma apresentação em um programa de TV no dia seguinte, por conta do trânsito. The Moody Blues estavam no poster original para a cidade de Wallkill, mas declinaram após as várias mudanças de local.

Apesar do iminente potencial de desastre, naturalmente causado pela grande aglomeração de pessoas, Woodstock estava destinado a entrar para história como uma vitória do movimento contracultural. Durante as três noites do festival, e suas manhãs seguintes, trinta e dois artistas e bandas se apresentaram para centenas de milhares de pessoas, todos conectadas pela música e por um desejo de paz, em um momento delicado da história.

O primeiro artista a subir no palco foi Richie Havens, tocando no lugar da banda Sweetwater, que ficou presa no tráfico a caminho do festival, e tocaria apenas duas horas depois. O discurso de abertura foi feito pelo mestre espiritual hindu Satchidananda Saraswati. A apresentação do mestre do sitar, Ravi Shankar, foi feita abaixo de chuva. A cantora Melanie substituiu a Incredible String Band, que optou por não se apresentar durante a tempestade, e viria a tocar apenas no dia seguinte. A noite de sexta-feira foi fechada pela cantora folk Joan Baez, então grávida de seis meses.

 Fãs presentes no festival assistindo aos shows em cima de um ônibus, 1969.

O dia de sábado trouxe os principais nomes do festival. Santana foi umas das primeiras atrações, tocando clássicos como Evil Ways e Soul Sacrifice. Logo após, John Sebastian, que estava apenas prestigiando o evento, foi convidado a subir no palco enquanto muitos dos artistas ainda não tinham chegado ao local. Após a apresentação de Canned Heat, a banda Mountain, tocou uma canção que eventualmente receberia o nome de For Yasgur’s Farm, uma homenagem ao proprietário da fazenda. A banda Grateful Dead tocou em seguida, com um jam de quase cinquenta minutos da canção Turn On Your Love Light.

A primeira banda a concordar em tocar no festival, Creedence, tocou apenas na madrugada do sábado para domingo, com boa parte do público já dormindo, mandando canções como Proud Mary e Susie Q. A noite ainda contou com Janis Joplin, tocando com a Kozmic Blues Band e Sly and the Family Stone. Durante o amanhecer de domingo, the Who subiu ao palco, como uma das principais atrações do evento. Já no meio da manhã, a banda Jefferson Airplane se apresentou. Ela seria a única a tocar nos quatro maiores festivais da década de 1960, Monterey Pop, em 1967, o primeiro Isle of Wight, em 1968, Altamont, em 1969 e, claro, Woodstock.

No tarde do domingo, o primeiro a subir no palco foi Joe Cocker, antes que uma tempestade interrompesse o festival por várias horas, até que Country Joe and the Fish pudesse se apresentar, seguido dos britânicos da Ten Years After. A lendária the Band tocou canções como I Shall Be Released e The Weight. Johnny Winter, com a participação de seu irmão, Edgar, e Blood Sweat & Tears se apresentaram antes de Crosby, Stills, Nash & Young, que fariam apenas sua segunda apresentação juntos.

Jimi Hendrix tocando em Woodstock com seu traje branco com franjas azuis e lenço vermelho na cabeça é uma das imagens clássicas do festival e da década de 1960.

Já era meio da manhã da segunda-feira, com apenas uma parcela do público ainda presente, quando Jimi Hendrix começou a principal apresentação do festival. Tocando clássicos como Red House, com apenas cinco cordas, Foxy Lady, Fire, Voodoo Child (Slight Return), Purple Haze e Hey Joe, Hendrix foi o artista mais bem pago do evento.

Meses após o festival de Woodstock, os problemas de organização do festival de Altamont, que causaram quatro mortes, e as prisões de Charles Manson e seus seguidores por uma série de assassinatos, além das mortes de Jimi e Janis no ano seguinte, trouxeram uma imagem negativa à cultura hippie. Por fim, a retirada das tropas norte-americanas no Vietnã, e o escândalo Watergate, que eventualmente derrubaria o presidente Richard Nixon no começo da década de 1970, significavam o fim do movimento contracultural. Mas neste momento, Woodstock já havia entrado para a história.

Woodstock foi mais que um festival. Mais que um chuvoso fim de semana em 1969. Mais que apenas música. Woodstock foi a grande celebração de um dos períodos mais importantes da história da cultura popular, onde quase meio milhão de jovens viram que faziam parte de um só organismo, maior do que qualquer indivíduo.

Curtiu? Então larga mão de ser preguiçoso e compartilha com a galera!
Se achar melhor, volte para o início do site e se liga nas WP News.
Por Eduardo Hoff

 

 

COMENTÁRIOS
Comentário enviado com sucesso!