Devil Man: A Música de Charles Manson
13/08/2019 18:47 em Crônicas

A história de Charles Manson parecia ter muito em comum com outras figuras importantes do movimento contracultural da década de 1960. Até o momento em que ela começou a se parecer exatamente o oposto. Antes de sua condenação por envolvimento em uma série de nove assassinatos, incluindo a atriz Sharon Tate, cometidos por membros de seu culto em 1969, Manson compartilhava muitos dos valores do estilo de vida hippie, e almejava seguir uma carreira como cantor e compositor.

Ao sair da prisão em março de 1967, Manson se mudou para San Francisco, na Califórnia, estabelecendo-se como um guru no distrito de Haight-Ashbury, berço do movimento hippie, durante o período que ficaria conhecido como Summer of Love. Antes do final do verão, Manson, acompanhado de alguns de seus seguidores, viajou por toda costa oeste dos EUA em um ônibus escolar reformado, antes de retornar à Califórnia e se estabelecer em Spahn Ranch, nos arredores de Los Angeles, em agosto de 1968. Ali, Manson formaria uma comuna, atrairia seguidores, e daria início ao seu culto, conhecido como The Manson Family.

Entrando e saindo de reformatórios e penitenciárias desde os 16 anos de idade, foi atrás das grades que Manson aprendeu a tocar violão e começou a escrever suas canções. “Cada canção que eu tenho feito é um erro logo atrás de outro. Eu pego esse erro, faço um groove, e ele se torna outra coisa”, disse Manson em uma entrevista logo após deixar a prisão em 1967. “Eu toco meu violão e isso se torna outro erro. E eu continuo cometendo o mesmo erro e isso se torna uma batida”. Para alguns, foi exatamente o seu envolvimento com a música, e as consequências da sua falta de sucesso, que deram início ao seu reino de terror.

                                                                    Charles Manson, durante seu julgamento em 1970.

Em 1968, Manson conheceu Dennis Wilson, dos Beach Boys, por meio de duas de suas seguidoras. Wilson logo demonstrou interesse na música de Manson e, durante os próximos meses, os dois viriam a trabalhar juntos. Wilson apresentou Manson para figuras importantes da indústria, como Terry Melcher e Gregg Jakobson, que ficou particularmente impressionado com a figura de Manson, e se ofereceu para investir no seu material.

Naquele ano, Manson gravou cerca de dez músicas, com produção dos irmãos de Dennis, Brian e Carl Wilson, também dos Beach Boys. Ao contrário do imaginado, as gravações não eram apenas demos, mas canções inteiramente produzidas e prontas para comercialização. Uma dessas gravações era Cease to Exist, canção de Manson que foi comprada por Dennis, e gravada pelos Beach Boys, com o nome alterado para Never Learn Not to Love, como o lado B do single Bluebirds over the Mountain, lançada em dezembro de 1968. A canção foi incluída no álbum de estúdio 20/20, de 1969, com nenhum crédito dado a Manson. Além disso, a letra Cease to Exist foi modificado para Cease to Resist, fato que enfureceu Manson, que chegou a ameaçar Wilson e sua família.

Após conhecer Manson através de Dennis Wilson, Terry Melcher, famoso por produzir os dois primeiros álbuns do the Byrds, Mr. Tambourine Man e Turn! Turn! Turn!, ambos em 1965, demonstrou interesse em produzir um álbum de Manson, além de um filme, documentando a vida hippie na sua comuna no deserto. Entretanto, após saber sobre seu comportamento violento e as ameaças à Wilson, Melcher eventualmente se recusou a assinar com Manson e abandonou os dois projetos. Meses depois, Melcher se mudou, e sua casa foi alugada para o diretor Roman Polanski e sua esposa, a atriz Sharon Tate. Em agosto de 1969, Tate, então grávida de oito meses e duas semanas, e quatro de seus amigos, foram assassinados na mesma casa por membros da Manson Family.

                      Três seguidoras de Manson, (da esquerda para direita) Leslie Van Houten, Susan Atkins e Patricia Krenwinkel, durante julgamento em 1970.

As composições de Manson foram finalmente lançadas em 1970, com o álbum Lie: The Love and Terror Cult, constituído de treze músicas gravadas entre 1967 e 1968, incluindo uma regravação de Cease to Exist. O álbum foi produzido e distribuído por Phil Kaufman, que havia conhecido e feito amizade com Manson na prisão e, inclusive, passado algum tempo vivendo em sua comuna. Kaufman já era um nome conhecido na indústria da música, tendo trabalhado com nomes como Gram Parsons, Frank Zappa, Etta James, Joe Cocker e, inclusive, the Rolling Stones, durante as gravações do álbum Beggar’s Banquet.

Com Manson já sob custódia e aguardando julgamento pelos assassinatos, nenhuma grande gravadora se interessou em distribuir o álbum, e apenas duas mil cópias foram feitas, e em torno de trezentas foram vendidas. No mesmo ano, membros da Manson Family gravaram um álbum de composições de Manson, chamado Family Jams, que viria a ser lançado apenas em 1997.

Em 1971, Manson foi condenado à pena de morte que, eventualmente, seria modificada para uma sentença perpétua, quando a pena de morte foi declarada inconstitucional no ano seguinte. Durante as quase cinco décadas enquanto esteve preso até sua morte em novembro de 2017, Manson continuou a gravar dentro da prisão, com alguns álbuns sendo lançados. Em 1993, a banda Guns N’ Roses gravou uma versão de Look at Your Game, Girl, de Manson, como uma faixa escondida do seu álbum de covers The Spaghetti Incident?. Bandas como Kasabian, Spahn Ranch e Marilyn Manson derivaram seu nome de Charles Manson e sua história.

 

 

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Por Eduardo Hoff

 

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