At Folsom Prison: O Dia que Johnny Cash Foi para a Prisão
06/08/2019 18:55 em Crônicas

“Hello, I’m Johnny Cash”. Aplausos. Riff de Folsom Prison Blues. Assim começou um dos mais memoráveis e místicos shows da história da música. No dia 13 de Janeiro de 1968, Johnny Cash entrava na penitenciária estadual de segurança máxima de Folsom, na Califórnia, EUA, não para servir uma sentença por ter cometido um crime, mas para se apresentar para aqueles que tinham ficado para trás. Aquele momento, na sala de jantar dos detentos, logo atrás do corredor da morte, daria origem a um dos mais importantes álbuns da música country: At Folsom Prison.

A icônica apresentação, entretanto, significava mais do que apenas música. Quando Cash adentrou os muros cinzas de Folsom Prison, sua vida e carreira não iam bem. “Esse som tem uma sensação de permanência”, disse Cash, após o fechamento dos portões da prisão. Quantas vezes aquele som teria representado o fim da liberdade de um homem. Cash nunca havia servido tempo em uma prisão, mas entendia como os prisioneiros se sentiam. Entendia como era ser visto como um fora da lei. Sabia como era o sentimento de cometer um erro. Após sucessos como Walk the Line, Don’t Take Your Guns to Town e Ring of Fire, a dependência em drogas resultou uma queda de popularidade que quase acabou com sua carreira.

 

A ideia de gravar um álbum ao vivo em uma penitenciária existia desde o final da década de 1950, mas foi colocada em pausa pela gravadora pelo medo de má publicidade, por conta dos problemas de abuso de drogas de Cash, até que Bob Johnston assumiu a produção do material do cantor em 1967. Em meio aos movimentos pelos direitos civis que colocava um novo foco nas condições dos detentos em presídios, e ao crescimento da contracultura norte-americana do final dos anos 1960, e o que ela tinha feito pelas carreiras de artistas como Bob Dylan e Joni Mitchell, Johnston viu uma oportunidade de aproveitar a imagem de fora da lei de Cash e mudar sua carreira.

 

Johnny Cash, no lado de fora da prisão estadual de Folsom, na Califórnia, EUA. 1968.

 Cash e sua banda, the Tennessee Three, fizeram duas apresentações na prisão de Folsom, uma pela manhã, e uma à tarde. Carl Perkins, tocando o sucesso Blue Suede Shoes, e the Statler Brothers, com seu hit Flowers on the Wall, abriram o show. Logo após, os prisioneiros foram instruídos a não bater palmas até que Cash se apresentasse. Quando o guitarrista Luther Perkins deu início ao show com o clássico riff de Folsom Prison Blues, o cenário estava perfeito para um dos dias mais enigmáticos da história da música.

 

Não foi um show comum. Cada música foi cuidadosamente escolhidas para aquele momento. Era uma setlist para criminosos. Após Folsom Prison Blues, que Cash havia escrito de acordo com a sua percepção dos sentimentos de um criminoso, o show continuou com várias canções que remetiam à vida na prisão e clássicos do outlaw country, como The Wall, The Green, Long Black Veil Green Grass of Home, Cocaine Blues e 25 Minutes to Go, que descreve a espera de um condenado à pena de morte antes de sua execução. June Carter, em meio às preocupações de ter uma mulher se apresentando em um presídio masculino, se juntou a Cash no palco para um dueto na canção Jackson. Das dezessete músicas que entraram para o álbum, quinze foram gravadas na primeira apresentação, com Get My Love to Rose e I Got Stripes sendo as únicas exceções.

Johnny Cash e June Carter no pátio da prisão estadual de Folsom, na Califórnia, EUA. 1968.

 

As duas apresentações terminaram com a música Greystone Chapel, escrita pelo detento Glen Sherley, que servia sua sentença por roubo a mão armada em Folsom. Cash recebeu a canção por meio do reverendo Floyd Gressett, que trabalhava na penitenciária, e ficou até tarde da noite anterior ao show aprendendo e ensaiando a música. Sherley estava sentado na primeira fila durante a apresentação, e não sabia que sua canção seria tocada.

 

At Folsom Prison, lançado em maio de 1968, vendeu mais de três milhões de cópias, e foi o primeiro álbum de Cash a chegar no topo das paradas country desde 1965. O álbum resultou em uma sequência de álbuns ao vivo em prisões, incluindo At San Quentin, lançado no ano seguinte, que chegou ao topo das paradas country e pop. O sucesso também rendeu à Cash o seu próprio programa de televisão, The Johnny Cash Show, em 1969.

 

Mas foi At Folsom Prison, combinando a simplicidade do momento com a complexidade de seu significado, que fez de Cash um ícone, tanto do country e do folk, mas também do rock and roll. Um álbum que conseguiu se relacionar tanto com a classe trabalhadora como com a contracultura. Que fez de Cash um símbolo dos pobres e oprimidos. O cantor dos ladrões e foras da lei.

 

Apenas Johnny Cash e um microfone, caminhando a tênue linha do bem e do mal, ódio e perdão, mito e realidade, em meio a grades e gigantes blocos cinzas de concreto, levando alegria à um lugar que não a conhecia.

 

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Por Eduardo Hoff

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