Martin Heidegger; um olhar sob a ontologia do Ser
22/07/2019 17:16 em Aleatoriedades

O ser foi desde as épocas antigas de Sócrates e o sofismo, neutralizado, domesticado e adestrado a entrar na padronização do indivíduo. Primeiramente na Grécia, com Sócrates, o demônio helênico ateniense e seus discípulos, com a razão. Posterior, na medievalidade, com a religião (e o medo). E por fim, na modernidade, com o renascimento, a razão e a perfeição do ente.

Sócrates fez do Ser um indivíduo politico, pensante e totalmente racional. Ele queria alcançar as divindades de forma transcendente/racional, junto aos grandes Deuses e sábios, enquanto os cultos dionisíacos vinham com o extravaso orgiástico e alcoólico, o que diziam que igualavam o homem aos Deuses, que o vinho retirava os medos e davam-lhe força e coragem. No medievalismo, o domínio do poder veio com a religião e a perfeição de Deus, com a total repressão dos instintos e desejos. Na modernidade cresceu a ideia de iluminação pelo método racional, o que fez criarem o renascimento, baseado na antiga cultura grega. Essa foi a construção dos alicerces centrais do edifício socrático/apolíneo que é base do pensamento social do ocidente. Olhando a história da Europa hoje, vê-se na maior parte catástrofes, guerras, crises e revoluções. Durante esse processo, nasce na Alemanha um ponto de inflexão.

O filólogo clássico, estudioso da tragédia grega, Nietzsche, traz a dúvida da utilidade que todo esse processo trouxe a humanidade. Dioníso é tão importante quanto Apolo, como uma moeda, que têm duas faces nela mesma. O processo de moralização fez parte da evolução do enfraquecimento e esquecimento do Ser, da dominação incondicionada da metafísica. É a essência do processo massificante popular, da coerção do progresso. Nietzsche surge com a proposta da negação das estruturas estáveis e permanentes do ente, devendo romper com tudo isso criado.

Desse ponto, vem Martin Heidegger, nascido logo após o colapso final de Nietzsche. Os estudos iniciais de Heidegger são uma tentativa de entender o Ser e o seu sentido. Alemão como o antecessor, segue sua linha de crítica a metafísica, começando pela vida, o homem e o sentido; Poderia se dizer que a vida é uma interpretação constante da realidade, tanto de si mesma como de todas as coisas. Seria, dizendo de outra maneira, a constante maneira de olhar e entender o mundo. A característica fundamental do homem é ser um ser-no-mundo, alguém que foi jogado no mundo e que nele habita. Fazendo um paralelo, pode-se ver da seguinte maneira; como o ser interpreta-se a si mesmo, onde mora e da maneira como faz.

Depois de passar muito tempo na cidade, volta para o interior, de onde tem sua origem. Vai para a floresta negra. Heidegger preferia a natureza por ela se tratar de uma contínua transformação, do dia para a noite, no ir e vir das estações. A solidão tem força primitiva que nos lança todo o DASEIN. A desertificação se expande e toma conta dos seres. O contexto trata da perda da cultura e história, motivado com a sua saída da floresta negra, ocasionado pela industrialização e posteriormente pelos bombardeios da guerra. A destruição histórica e cultural elimina tudo que foi construído e a desertificação põe barreiras para o retorno disso ou da construção de novos. O homem perde seu habitat e com isso perde toda sua herança histórica e cultural, o passado, seu tempo. Daí, pode-se associar essa ideia de Heidegger com a alienação cultural, onde, com os processos industriais, a massificação cultural e todo o rápido movimento social, a cultura está caminhando para o mesmo lado, quer dizer, todos os países e nações parecem estar iguais quanto a cultura, todas influenciadas pelo capital dominante do mercado.

O traço fundamental da vida realmente vivida, a vida fáctica, é a questionabilidade; as questões que dizem respeito a que?, de onde? e para onde?, ou seja, sobre a finitude temporal do ser humano. Todas as teorias ontológicas até então pensadas eram basicamente apenas tranquilizantes para fugir da questão de como a vida realmente é e sobre sua finitude. A origem do Ser vem do mundo de si-mesmo, e não é uma substância ou algo metafísico, é a pura espontaneidade, que produz as formas originais da vida, que se interpreta e se entende.

Um ponto importante de seu trabalho é o retorno dos estudos dos pré-socráticos. Faz isso exatamente pela oportunidade de fugir da metafísica que objetivou o Ser. As atividades humanas estão dentro da physis, dentro de um lógos, que cada um, individualmente, recebe a possibilidade de agir por si-mesmo, mas dentro de um único mundo, ou seja, o lógos é o local onde o Ser recebe as possibilidades de Ser. O homem, para ser homem, não precisa de Deus ou de outro homem, apenas da existência junto a natureza, que é o que dá a possibilidade da sua destinação.

Quando pergunta-se pelo horizonte ou sentido unificador dos entes que habitem regiões diferentes, com culturas e classes diferentes, Heidegger assegura que sua unidade deve ser vista fora de qualquer derivação, encobrimento ou conceito; deve ser pela característica da existência de ser-no-mundo, o que é uma physis compartilhada. Do mesmo modo, quando perguntado sobre a verdade do ser na época da técnica, é incisivo ao dizer que a técnica é apenas mais uma estampa do Ser, obtida pelos meios metafísicos, característica do mundo ocidental.

Algo também muito importante de recordar, como parte do caminho feito por Heidegger, é a sua desconstrução – reconstrução; quer dizer que a verdade sobre o Ser da modernidade foi construída de Platão e finalizada com Hegel. Sua ideia é exatamente oposta a Hegel, que se baseia em uma construção progressiva do absoluto. Heidegger fala que o absoluto construído por Hegel é precisamente a via certa do esquecimento total do absoluto, ou seja, o absoluto de Heidegger é exatamente a desconstrução da construção, o retorno a origem, à clareira do ser.

 
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