O Impacto do Rock Britânico no Blues e na Segregação Racial dos EUA
09/07/2019 19:02 em Música

Em meados de 1964, enquanto o congresso norte-americano aprovava a Lei dos Direitos Civis, que oficialmente marcava o início do fim da segregação racial imposta pelas leis de Jim Crow nos Estados Unidos da America, a invasão britânica do rock já havia atravessado o Atlântico e econtrava-se em todo efeito na terra do Blues

Liderada por bandas como the Beatles, the Rolling Stones, the Yardbirds, the Animals, the Who, the Zombies, the Kinks e, posteriormente, Cream, Ten Years After e Led Zeppelin, a invasão britânica ajudou a popularizar o rock baseado em blues entre o público branco norte-americano, que ainda resistia à cultura afro-americana

Nascimento do Blues

Originado no extremo sul dos EUA no final do século XIX, o blues nasceu de canções de trabalho baseadas na cultura e crenças espirituais africanas, cantadas por escravos e afro-americanos livres nas plantations na região do Delta norte-americano antes e depois da Guerra Civil (1861-1865). Caracterizado pelo padrão de chamada e resposta, escalas e progressões, o blues pode, primariamente, ser dividido em duas principais categorias: o rural, chamado de Country blues, representado principalmente pelo Delta blues; e o urbano, destacando o Chicago blues

Frequentemente chamada de canções do diabo, o blues influenciou os primeiros artistas do rock and roll no final da década de 1940 e no início da década seguinte, como Chuck Berry, Little Richard, Elvis Presley, Carl Perkins, Jerry Lee Lewis e Bill Haley. Descrito como um blues com batida, o rock and roll norte-americano da década de 1950 viria ser a principal inspiração para as bandas beat e pop do Reino Unido do final da mesma década, que eventualmente iriam atravessar o oceano para os ouvidos norte-americanos.

 

Uma das únicas fotos confirmadas de Robert Johnson, 1935

 

A Invasão Britânica

Em 1964, os Rolling Stones lançavam seu homônimo álbum de estreia, chegando a décima primeira posição na lista da Billboard dos álbuns mais tocados dos EUA, carregando covers de artistas negros do blues norte-americano, como Willie Dixon, Jimmy Reed, Ellas McDaniel e Chuck Berry. O sucesso do álbum, combinado com a instantânea popularidade dos Beatles, depois do lançamento de A Hard Day’s Night, e outros grupos da invasão britânica, como the Zombies e the Kinks, começava a trazer o blues para uma maior audiência branca norte-americana. Em setembro de 1964, John Lennon anunciou que os Beatles não aceitariam tocar em Jacksonville, Flórida, depois de descobrir que o público seria dividido em brancos e negros.

Em 1965, os Yardbirds lançavam o seu álbum de estreia, For Your Love, deixando claro as influências do Delta blues norte-americano no estilo de seu guitarrista principal, Eric Clapton. No mesmo ano, porém, Clapton deixou o grupo para se juntar a John Mayall and the Bluesbreakers, banda que revelou alguns dos maiores nomes do blues britânico das décadas de 1960 e 70.

Eric Clapton e Cream Conquistam a América

Em 1966, Clapton formou o supergrupo Cream, juntamente com Ginger Baker na bateria e Jack Bruce no baixo e vocais. Seu álbum de estreia, Fresh Cream, incluiu covers de grandes nomes do blues norte-americano, como Muddy Waters e, para muitos, o ainda desconhecido Robert Johnson. Mas foi o seu segundo álbum, Disraeli Gears, lançado em 1967, que fez do grupo um dos mais populares no dois lados do Atlântico, chegando na quarta posição dos álbuns mais tocados nos EUA.

Quando seu terceiro álbum, Wheels of Fire, foi lançado em 1968, Cream já era uma das maiores e mais populares bandas da américa do norte, e Eric Clapton considerado um dos principais guitarristas de sua geração. O álbum, dividido em duas partes, uma gravada em estúdio e outra ao vivo, levou pela primeira vez, Cross Road Blues, de Robert Johnson, considerada uma das maiores canções blues de todos os tempos, para os ouvidos de uma maior audiência.

Em 2000, B.B. King, conhecido como o Rei do Blues, e responsável por popularizar a técnica de solo com bends e vibratos na guitarra, colaborou com Eric Clapton no álbum Riding with the King. Na época, em entrevista para o New York Times, King descreveu as dificuldades na cena do blues antes da invasão britânica, dizendo que “Esses caras da Reino Unido abriram muitas portas para muitos de nós. Quando os britânicos falavam, americanos brancos ouviam. Serei sempre grato a esses caras. Parabenizo eles por serem pessoas de verdade”.

 

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Por Eduardo Hoff.

 

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